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31/01/2020 | Literário
Sertanejos festejam as alegrias das chuvas no sertão
Por: Ney Vital

Sertanejos festejam as alegrias das chuvas no sertão

"Só quem é das plagas sertanejas sabe bem o que representa despedir a estiagem, que na curva da estrada faz seu caminho para o oco do mundo. Açoitada pelos relâmpagos cortando os céus e sob o som estremecedor dos trovões, a seca vai embora por minutos...o homem vai parando em cada biqueira, molhando o corpo e lavando a alma, banhando-se alegre nas águas da chuva mandada por Deus, corre feliz na amplidão do sertão", diz o juiz e escritor paraibano Onaldo Queiroga.

Sertão é terra-mãe, com todas as delicadezas deste relacionamento. Pouca chuva. Sol abrasador. Sertanejos que na fé e com menos água, alimentos e sonhos vão atravessando o presente. Juazeiro, Petrolina e região na maioria dos dias a cada mês a temperatura registrada é superior aos 35 graus e sensação térmica acima dos 40 graus. No sertão chover é quase um milagre "vindo dos céus"

A chuva voltou a cair no sertão. Em dezembro este Blog Ney vital informou que os profetas da chuva estiveram reunidos na região do Cariri do Ceará e apontaram que previsões sobre a quadra chuvosa em 2020 seria boa.

Os profetas são moradores da zona rural que criam previsões a partir do que observam sobre a natureza. É levado em consideração a transformação na atmosfera e no ecossistema, além da posição dos astros. Geralmente, os profetas aprendem as técnicas de observação com os avós e outros familiares, que perpassam o talento por gerações.

"O ano de 2020 será de muita chuva". A profecia foi feita pelo agricultor Venceslau Batista, de 84 anos, que há décadas observa os sinais da natureza para saber se a pluviometria será generosa durante a quadra chuvosa, que se inicia em janeiro e segue até março. Morador do Perímetro Irrigado Icó-Lima Campos, ele é conhecido como "profeta da chuva", nomenclatura dada ao sertanejo que faz previsões de tempo e de clima a partir de observações das mudanças do ecossistema, da atmosfera, dentre outros métodos tradicionais de previsão.

"Encontrei um ninho de joão-de-barro com a entrada da casa virada para o poente e isso é bom", detalha o que ele acredita ser outro "sinal da natureza". "Nos anos anteriores eles faziam a abertura virada para o nascente, ou seja, era indicação de pouca chuva", complementa.

Em 2017, ano em que o sertanejo convivia com sete ano sem chuvas, a redação do Blog recebeu do município de Casa Nova, Bahia, uma foto do empresário Marcelo das Baterias. Marcelo representa o sentimento de milhões de sertanejos: festejar com o banho de chuva a esperança, o batismo da felicidade da chuva no sertão.

Noticias são de chuvas desde as primeiras horas deste dia em vários municípios: "Queria ver o voo da volta da Asa Branca descrito por Zé Dantas e cantado por Luiz Gonzaga. Queria sentir a poesia Zé Marcolino: “Pássaro Carão cantou / Anum chorou também / A chuva vem cair no meu sertão / Vi um sinal meu bem / Que me animou também/ É bom inverno que vem", aponta Onaldo Queiroga.

É verdade que a chuva não remediou a seca dos últimos anos. Mal chegou e partiu. Agora 2020 retornou. Vamos agradecer e festejar...

*Ney Vital-jornalista Petrolina Pernambuco


Onaldo Queiroga
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